O Sexo fraco? Mulher pública?: a polêmica dos termos “machistas” que ainda restam no dicionário.

O Sexo fraco? Mulher pública?: a polêmica dos termos “machistas” que ainda restam no dicionário.

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Sexo oposto: conjunto das mulheres. Sexo forte: conjunto dos homens.

Quase ninguém se atreveria a usar hoje estas expressões por medo de ser rotulado (não sem razão) de machista.

No entanto, essas locuções, que destilam desigualdade continuam em vigor no dicionário da Real Academia Espanhola da Língua (RAE).

Essa diferença que cataloga as mulheres como fracas e os homens fortes, provocou a indignação de uma jovem espanhola, Sara Flores de Alecrim, que usando a hashtag #Yonosoyelsexodébil e a vista posta no dia da Mulher, que se celebra nesta quarta-feira, pôs em marcha uma iniciativa através da internet para que a RAE borrara para sempre uma definição que ela considera humilhante.

“Como mulher, é normal que eu me sinta caverna e também penso que é uma grande ofensa para todas as mulheres e para todos os que têm lutado por que hoje em dia temos direitos. Em pleno 2017, me parece vergonhoso que ainda restarem mentes tão fechadas”, garantiu Flores à BBC Mundo.

“É incrível que, nos tempos que correm continuem permitindo que esses machismos e mais em uma instituição tão importante como a RAE, que diz ‘zelar pelo bom uso da língua portuguesa'”, disse.

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A proposta de Flores encontrou um forte eco nas redes sociais e cerca de 100.000 pessoas já assinaram.

A polêmica em Portugal, desencadeou-se, até o ponto em que a RAE, que não costuma entrar publicamente para este tipo de debates, emitiu uma resposta.

A Academia anunciou que fará mudanças na atualização da versão digital do Dicionário da Língua Portuguesa, prevista para o final deste ano, para deixar claro de que se trata de uma expressão com intenção depreciativa ou discriminatóriapara as mulheres que já não se usa.

Mas permanecerá no dicionário, com esse matiz, dado que o seu uso está documentado“, disse um porta-voz da RAE.

“Em termos de ‘sexo forte’, aparecerá outra marca, com a indicação de que se usa ‘em sentido irônico”, acrescentou.

Segundo o porta-voz, esta decisão não teria sido tomada na sequência da campanha iniciada por Flores, mas que teria sido adotada em 2016.

“Não se pode apagar o que não gosto”

“A verdade é que não entendo a polêmica, não acabo de entender por que tanta preocupação”, disse à BBC Mundo a escritora e acadêmica da RAE Solidão Puértolas, que sublinhou que um dicionário apresenta as expressões em uso, e o Oxford também contém uma expressão semelhante à de “sexo fraco”.

“Se o ‘sexo frágil’ é uma expressão em desuso, só o tempo dirá. Eu creio, efetivamente, que já quase ninguém usa, que está a ponto de cair no esquecimento, e que os poucos que o utilizam, o fazem no sentido irônico e bem-humorado”, acrescentou.

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“Mas mesmo se está em desuso não acho que deva desaparecer do dicionário, que é também uma história da língua. Não se pode e não se deve apagar o que não gostamos. Não podemos apagar a memória da história, se o fizermos, parece que chegamos até aqui por arte de magia”, disse a acadêmica.

Mas o “sexo fraco” não é a única acepção acusada de machismo que recolhe o dicionário da RAE.

Por exemplo, a instituição aponta que a expressão “mulher pública” se refere a uma “prostituta”, enquanto que um “homem público” é usado para aquele que “tem a presença e influência na vida social”.

Segundo a RAE, uma “mulher de governo” é “uma mulher de sua casa” ou “a empregada que tinha a seu cargo o governo económico da sua casa”.

“Acho que deveríamos colocar uma marca de desuso essas significados na próxima edição do dicionário. Mas, de novo, me parece bem que se saiba com que significado se empregava antes da expressão ‘mulher pública’, para não esquecer qual era a situação antes, de o que é agora, e de como chegamos até aqui”, sentença Solidão Puértolas.

Na última edição do dicionário, publicado em outubro de 2014, já desapareceram alguns enunciados machistas, como o que definia como “órfão” como “uma pessoa de menor idade a quem lhe matou o pai e a mãe ou um dos dois, especialmente o pai ou a acepção que se considerava “gozar” como o “saber deitando-se com ele a uma mulher”.